Linhas de desejo e representatividade

P5230041 - Ciclofaxia não-oficial

Foto: Macaco Véio

Rios sempre foram obstáculos naturais. Em São Paulo são a grande barreira para os meios de transporte ativos. Os rios Pinheiros e Tietê formam uma linha real que separa o centro expandido da capital do resto da mancha urbana metropolitana.

Alças de acesso que permitem velocidades altas para os motorizados e a ausência de faixas de pedestres acabam por desencorajar viagens a pé e de bicicleta nas pontes. Em algumas delas caminhar e pedalar é até proibido.

Como forma de reforçar o desejo de pedalar em segurança sobre o rio Pinheiros, ciclistas pintaram uma ciclofaixa na ponte Cidade Universitária. O fluxo de pedestres é enorme por conta da USP de um lado e da estação de trem do outro lado do rio. Some-se a isso a grande oferta de empregos de um lado e moradias do outro.

O “cicloativismo apocalíptico” exemplificado na sinalização não-oficial carrega consigo o desejo ancestral de traçar o caminho mais curto e seguir por ele. Nas palavras do filósofo Gaston Bachelard, é a linha de desejo, ou trilha social. Foi desse modo humano de viajar que se fizeram caminhos na mata, que viraram trilhas, estradas. Por onde passaram boiadas, trilhos e estradas.

Caminhos em qualquer cidade, ou espaço humano habitado, serão sempre os mais curtos e fáceis. Durante as últimas décadas esse caminho era pensado para a utilização de veículos motorizados. A demanda e ineficiência em deslocar pessoas provaram a falência desse modelo. Para mitigar o colapso, resta investir em alternativas que encoragem o uso de meios de transporte inteligentes para as inúmeras demandas humanas por ir e vir.

Leia mais:
- atos de amor e coragem (pedaline)
- 23 de maio (apocalipse motorizado)
- Desire path (wikipedia)
- Subconscious Democracy and Desire (Copenhagenize)

Relacionados:
- Pontes Paulistanas
- Fluxos de Água e de Vida
- Breve Fábula sobre Caminhos
- A Importância dos Apocalípticos
- Integrar-se à Cidade
- Vias Humanas

Uma resposta para “ Linhas de desejo e representatividade ”

  1. O Som das Sextas – XIX | O Último Baile dos Guermantes disse:

    […] Político, porque nunca a “cultural jamming” em Salvador foi tão incisiva e precisa como um bisturi cirúrgico, com táticas altamente requintadas e sutis (além de eficientes). Cultural jamming é um conceito que João Lacerda me apresentou hoje por causa deste post no blog da ONG Transporte Ativo, e me perguntou como eu traduziria. Opto por “subversão cultural”, já que com isso se preserva o caráter de estratégia política (onde podem se encaixar muitas táticas: da iconoclastia pura e simples – as vaias dos xiitas camisas-pretas aos trios elétricos nos carnavais dos anos 1990 -, até a negociação diplomática no sentido de partilhar o mesmo público de recepção – como fez a Formidável Família Musical). […]

Deixe uma resposta.