Blog da Transporte Ativo
19jan/070

Metrópoles e Qualidade de Vida

Foto Pablo

Um estudo da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCDE) chamado de Cidades Competitivas na Economia Mundial (baixe resumo em português), buscou analizar as necessidades e a importância da urbanização crescente. Além de tornar claro o desafio que representa a sustentabilidade das metrópoles para a humanidade.

São Fransciso, a cidade norte americana de ruas estreitas que sinaliza que os ciclistas têm direito à faixa, foi apontada pelo estudo como a metrópole mundial com a melhor qualidade de vida. Bondes e respeito aos ciclistas são certamente dois importantes pontos a favor da cidade.

Um video, em inglês, reporta a concorrência entre as aglomerações urbanas cada vez mais competitivas entre si. A conclusão, é que as cidades com melhores condições de vida para sua população, serão as mais bem sucedidas no futuro. Meios de transporte mais humanos e eficientes que resolvam o problema dos congestionamentos são certamente uma parte da solução.

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Mais informações no site da OCDE
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18jan/071

Implementação de um Espaço Compartilhado

O Projeto de um Espaço Compartilhado, busca criar locais públicos onde haja liberdade de movimentos e a interação social entre pessoas aconteça naturalmente. Um bom exemplo são as áreas residenciais, destinadas ao convívio, e onde o tráfego rápido deve se adaptar ao comportamento social do entorno.

O espaço social é projetado de forma que nós não o percebamos como um espaço de tráfego, mas como um espaço de pessoas. Uma pessoa em deslocamento (de bicicleta, carro, , moto, etc.) que passa por ali está ciente do fato de que ela é um visitante, e em resposta a isso, ela ajusta seu comportamento de trânsito ao comportamento social do contexto”. INTERREG III, programa da Comunidade Européia.

A escolha das áreas próprias para a implantação de Espaços Compartilhados deverá ser feita com muito cuidado pelos profissionais envolvidos, em lugares onde seja possível projetar uma rede lenta com uma velocidade máxima de deslocamento para veículos de 30 km/h. Isto é uma exigência para que a iniciativa funcione. Os diferentes usuários poderão dividir o mesmo espaço público e negociar a preferência através do contato visual.

A rede “lenta” só funciona se houver uma rede “rápida”.

A implantação de um Espaço Compartilhado implica no estabelecimento de três situações distintas: o comportamento social, o comportamento social de trânsito, e o comportamento de trânsito.

Num espaço onde prevalece o comportamento social, os movimentos são desfocados, imprevisíveis e relativamente lentos. O comportamento das pessoas é basicamente determinado pelo ambiente físico e pela conduta dos outros, onde o contato visual desempenha um papel importante. Este tipo de convivência é predominantemente encontrado nos espaços públicos.

O comportamento de trânsito se faz presente onde as pessoas querem se mover rapidamente de A até B. A chamada “rede rápida” de estradas e autopistas.São áreas projetadas para uma movimentação veloz para diferentes lugares. Neste cenário, a função do tráfego é o fator decisivo para o projeto, e demanda um tipo específico de comportamento. É caracterizado por movimentos diretos, focados e, basicamente, previsíveis. A velocidade é alta, e praticamente não existe contato visual. As pessoas se deslocam com objetivos definidos e seus comportamentos são fortemente guiados pelos sistemas legais do trânsito, por veículos na pista e por sinais de trânsito, tais como linhas de marcação de trânsito nas estradas e placas de trânsito.

A transição entre estes dois tipos bem diferentes de comportamento no deslocamento será caracterizado pelo comportamento social de trânsito, onde haverá uma mediação de atitudes, uma combinação de troca social com comportamento de tráfego. Para que "Espaço Compartilhado" funcione bem, é importante que se mantenham estas áreas de transição tão pequenas quanto possíveis, pois são as que oferecem maiores chances de incompreensões entre as pessoas. Ciclistas e pedestres que não estão com pressa esperam certo comportamento social da parte dos motoristas, enquanto usuários apressados presumem um outro comportamento dos demais.

> Fotos retiradas do site shared-space.org.
Para baixar uma publicação oficial sobre o tema, clique aqui. Também em português (pdf).

17jan/071

Promover a Troca

Via para propulsao humana

Esse resumo para blog foi uma colaboração de Lourdes Zunino, bem como a tradução do sumário do estudo em questão.

Criar vias exclusivas para pedestres e ciclistas mais curtas e agradáveis que as compartilhadas com veículos motorizados é uma maneira de incentivar a troca de modal.

Um projeto desenvolvido na Europa entre 1996 e 1998 para incentivar o uso da bicicleta ou viagens a pé em vez de usar o carro para pequenos deslocamentos afirma que:

"Muitos dos deslocamentos de carro são curtos e podem significar 50% de todos os deslocamentos deste modal, na maioria das cidades da Europa. Viagens consecutivas representam apenas uma parte destes deslocamentos. Outras razões, como transportar coisas e pessoas, são mais importantes neste tipo de deslocamento. Se as viagens por automóvel menores que 1km fossem feitas a pé, o uso do carro seria reduzido em 15%. Caso o limite aumentasse para 2 km, a redução seria de 30%. Considerando deslocamentos de até 5 km, incluindo o uso de bicicletas, a redução do uso de carros passaria para 50%, na maioria das cidades européias."

> Para mais detalhes sobre a pesquisa clique aqui.
> Fonte foto:
DULLAERT, I. (coord.) (2000) The European Greenways Good Practice Guide: Examples of Actions Undertaken in Cities and the Periphery. Association Européenne des Vois Vertes. Bélgica, Namur: European Greenways Association.
Disponível em http://ec.europa.eu/environment/cycling/greenways_en.pdf.

16jan/072

Bicicleta em estilo

Em semana de Fashion Rio, a bicicleta é destaque também no mundo da moda. Um engarrafamento na passarela, posam em destaque as beldades e suas belas máquinas à propulsão humana.

Foto de Divulgação

Só faltou o motorista particular com uniforme e cap. Como ilustra a charge de Miguel Paiva do início dos anos 1990.

A direção e o cenário do desfile ficaram a cargo de Bia Lessa, parabéns a ela.

16jan/071

Ultrapassagem

Foto Jym Dyer

Uma boa segurança no trânsito para os ciclistas também depende dos motoristas. Por isso, o artigo 201 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) diz que:

Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:

Infração - média;

Penalidade - multa.

Já o artigo 220:

Deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito:

(...)

XIII - ao ultrapassar ciclista:

Infração - grave;

Penalidade - multa;

XIV - nas proximidades de escolas, hospitais, estações de embarque e desembarque de passageiros ou onde haja intensa movimentação de pedestres:

Infração - gravíssima;

Penalidade - multa.

Em ruas muito estreitas, com passagem para um só veículo, a bicicleta tem, portanto, direito a tomar a faixa. Naturalmente a gentileza de ceder passagem assim que possível ameniza o convívio com os motoristas.

As placas que ilustram esse post buscam reforçar o bom senso que é sempre o foco em qualquer legislação de trânsito. O veículo mais pesado deve zelar pela segurança do mais leve.

Bicicletas

Foto Jym Dyer

"Biciclistas têm direito à faixa inteira. Mude de faixa para ultrapassar".

15jan/071

Mobilidade na Dinamarca

Dinamarca

Foto Culture Blender

Na Dinamarca, uma das maiores rendas per capita do mundo, quase 50% dos 1,5 milhão de habitantes que vivem na capital vão de bicicleta para o trabalho. Em compensação, apenas um terço das famílias tem automóvel.

Fatores que incentivaram a utilização da bicicleta: geografia plana, construção de vias exclusivas e sinalização adequada, criação de impostos severos para o registro e estacionamento de autos. Vale recordar o vídeo "Dinamarca, cidade dos ciclistas". Nele é dada a informação de que 70% dos usuários da bicicleta seguem pedalando mesmo no rigoroso inverno dinamarquês.

Implicações positivas: uma pesquisa realizada durante 15 anos pelo Centro de Estudos do Coração da Universidade de Copenhage, mostrou que os cidadãos dinamarqueses que optaram pela bicicleta como principal meio de transporte, vivem bem mais do que os sedentários, apresentando um baixíssimo índice de doenças cardíacas, contribuindo por tornar a Dinamarca um dos países europeus com o menor índice de mortalidade por problemas de coração.

Até mesmo os sedentários podem contar com opção de deslocamento em Ciclo-táxis. Uma empresa chamada "Cykeltaxi" tem um vídeo interessante. Como diz o slogan deles, "De uma volta no lado verde da vida". Transporte Ativo de passageiros (aqui, outros exemplos).

12jan/070

Redescoberta da Energia Humana

Imagem: Bicyclopolis

As emissões de CO2 tem sido atacadas principalmente através do Protocolo de Quioto, que a União Européia anunciou que cumprirá. No entanto, a humanidade terá de rumar firme para um futuro mais limpo numa integração mais saudável com o meio ambiente.

Em um exercício de futurismo é difícil imaginar a civilização humana em uma era pós-petróleo. Mesmo para os que não lêem inglês, vale conferir o site Bicyclopolis. Desenhos sombrios mostram um futuro de cidades desertas cobertas de escombros. Asfalto, concreto e aço sem brilho. Mas em meio ao caos, resplandece a tão querida magrela movida a propulsão humana. O meio de transporte do futuro, até mesmo mesmo em um futuro sombrio.

11jan/071

Rotina diária

O termo em inglês "commute" define com precisão a jornada "casa-trabalho-casa". Rotina para bilhões de urbanóides pelo mundo afora.

Existem várias formas de se deslocar, todas elas requerem tempo, espaço e energia. No quesito geral a bicicleta naturalmente ganha no aproveitamento dos três, no entanto existe um fator absolutamente subjetivo.

Aqueles que tem o prazer rotineiro de ir trabalhar pedalando certamente têm acesso a uma outra cidade, um mundo quase que paralelo e que se torna um pouco parte do ciclista. "Commuting", o diário ir e vir, não se resume aos destinos, há sempre a jornada.

Mais referências (em inglês):
- Commuting
- Bicycle Commuting

10jan/071

Chute em um Carro

Chutei um Carro

Num momento de fúria um homem se vira contra a máquina. Por achar uma questão relevante para seus leitores o personagem humano desse fato escreve uma coluna para o jornal e sai de férias.

O pedestre é o elemento mais frágil do trânsito e por isso a legislação brasileira enfatiza que é dever de todos protege-lo. A realidade nas ruas não costuma ser assim. Rotineiramente quem domina a máquina mais pesada intimida os mais fracos.

Seja por má fé, ou simples ignorância, o motorista brasileiro em geral desconhece seu dever de proteger a vida dos demais componentes do trânsito. Cabe sempre um alerta por parte dos mais fracos. Quanto mais educado, simples e direto, mais possibilidade de se obter sucesso em difundir o respeito.

Em sua coluna mais recente, o jornalista Artur Dapieve dedicou o espaço semanal que ocupa a questão da opressão que passa o pedestre na rua e também como o trânsito pode ser um indicador de desrespeito cívico.

Vale a pena conferir.

Chutei um carro
Na esquina de Ataulfo com Rainha Guilhermina

Mas foi em legitima defesa. Eram 1h30m de sábado, mais ou menos, e eu e minha mulher íamos atravessar da calçada do Polis Sucos para a do Jobi. Embora estivesse vermelho para o trânsito, alguns motoristas avançavam o sinal. Apontei pra cima, olhei em frente, como costumo fazer, e botamos o pé na faixa de pedestres. Um carro branco insistiu em forçar caminho. Passou na nossa frente, ao alcance do meu pé, e chutei a lataria.

Não forte o bastante para deixar mossa, mas chutei. O motorista solitário ficou olhando para trás e pelo retrovisor, conforme prosseguia pela Ataulfo de Paiva, em busca de mais leis de trânsito para infringir. Nem sei se ele entendeu direito o que aconteceu. E, como mostrou não saber a diferença entre verde, amarelo e vermelho, é pouco provável que compreenda um código bem mais complexo, como o alfabeto latino.

O sinal estava vermelho para o trânsito, aquela esquina estava bem iluminada, e as ruas do Leblon estavam cheias de gente pelas calçadas, festejando a iminente chegada de 2007 - apesar dos agourentos ataques terroristas patrocinados pelo tráfico de drogas na véspera. Não era um cruzamento mal iluminado, ermo, ameaçador. Eu e minha mulher não usávamos toucas ninja. E, ainda assim, o motorista avançou o sinal vermelho.

Obviamente, aquela não é a única esquina desta cidade a ter o sinal vermelho avançado, aquele não é o único horário em que se avança sinal vermelho nesta cidade e aquele não é o único motorista desta cidade a avançar sinal vermelho. Daí o meu hábito de apontar para cima e olhar em frente, enquanto atravesso a rua. No máximo, já abrira os braços ou dera uns tapinhas quase amistosos na lataria do infrator, tipo "vai, animal". Talvez o próximo estágio da neurose urbana seja carregar um taco de beisebol.

O motorista poderia estar armado, poderia ter descido do carro branco e e você poderia ter lido o meu breve obituário na edição de domingo, sim. E daí? O que isso provaria? Que é mais sábio botar o rabo entre as pernas enquanto bárbaros avançam sinais? Já notou o absurdo de termos de ensinar às crianças que não basta esperar o sinal ficar vermelho para o trânsito, mas que é preciso esperar e ver se os carros estão a fim de parar? Se nos acostumamos com uma indignidade cotidiana, nos acostumamos com todas as outras: pitbulls sem focinheira, seqüestro coletivo de aviões, ônibus incendiados.

Na nossa sociedade autocêntrica, herança maldita de Juscelino Kubitscheck, na qual a posse de um carro substitui um bom transporte público e/ou uma vida sexual saudável, o trânsito é o mínimo denominar comum da doença coletiva. Sintomático que, aqui, o pedestre tenha de deter o passo e deixar o motorista prosseguir. Afinal, vigora a lei do trânsito mais forte: é apenas uma besta contra cem ou mais cavalos-vapor. Dos países que conheço, o nosso é o único onde o carro tem sempre a preferência informal.

(Nisso, quem diria, Brasília é quase solitária exceção de respeito ao mais fraco no trânsito brasileiro. Lá, o pedestre põe o pé na faixa e os carros ou reduzem a velocidade, ou para por completo. Bem, nalguma coisa Brasília teria de não avançar o sinal...)

Outro dia, ouvi de um colega o relato de um episódio emblemático de como o trânsito simultaneamente informa e macaqueia o confronto diário entre o público e o privado no Brasil. O carro à frente do dele furou o sinal vermelho e arremeteu contra um grupo de colegiais uniformizados da rede municipal, diante do Miguel Couto. Dentro, iam papai ao volante, mamãe de carona e, no banco de trás, o filhinho do casal, com o uniforme de uma escola particular, seguro pelo cinto. Tremenda aula de sociologia.

Essa flexibilização das leis de trânsito em benefício próprio marca, talvez mais do que qualquer arcabouço institucional, a distância entre uma democracia e uma republiqueta de bananas. Do mesmo modo que a indústria automobilística da qual emergiu o presidente Lula foi a matriz escolhida por JK para o desenvolvimento pátrio, a vista grossa para a infração de trânsito que ela trouxe a reboque é a matriz do desprezo pátrio pelo Outro.

Ao sermos tolerantes com o avanço de sinal vermelho, com a fila dupla no meio da via, com o motorista que não dá nem seta (e logo) nem satisfação na hora de entrar numa rua, com o que buzina na frente do hospital, com aquele outro que estaciona com duas rodas sobre uma calçada estreita e obriga os carrinhos de bebê a contorná-lo pelo asfalto, com o jogador de futebol que disputa um pega no seu carrão importado e mata três jovens, estamos prontinhos para outras leniências, em outras esferas da vida pública.

Ora, quem não faz caixa dois, não é esse o papo?

Tudo isso, claro, é uma racionalização a posteriori da minha madrugada de fúria, que se renova enquanto escrevo. Mas sei que não chutei a lataria do carro branco apenas pelo que o seu motorista solitário de fato era: um infrator sem vergonha de desrespeitar o nosso direito de atravessar a rua na hora combinada e, em última instância, sem vergonha de ameaçar a nossa própria existência pedestre. Chutei também o que ele, sem saber, simboliza: uma nação que se reiventa como desterro a cada troca de verde por vermelho.

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Como se lê, ando estressado. Preciso sentir um pouco de saudade da minha cidade. Por isso, estou saindo de férias. Retorno à página no dia 9 de fevereiro. Até lá.

Publicado no Jornal O Globo no dia 5 de janeiro de 2007. Reproduzido com autorização do autor.
Clique aqui para ler a coluna (usuários cadastrados).

9jan/072

Estréia de uma Ciclovia

Jornal do Brasil

Foto Danilo Tanaka

À convite do Jornal do Brasil a Transporte Ativo percorreu a orla carioca apontando erros e acertos da malha cicloviária da cidade. Aproveitamos também para conhecer in loco a mais nova ciclovia da cidade. Que foi apresentada aqui.

O resultado foi publicado com grande destaque no domingo, 7 de janeiro. Baixe aqui em pdf.

Vale também entrar em contato com o jornal para que mais reportagens sejam escritas sobre o tema "bicicleta". Com diversos incentivos, tende a aumentar a sensibilização dos meios de comunicação e da população quanto a importância do transporte sustentável para a construção de cidades mais humanas.

Não basta mostrar as mazelas urbanas, é de fundamental importância que seja dado o devido destaque as soluções possíveis e que já estão em curso. Nesse âmbito, cada bicicleta a mais no trânsito representa muito mais do que um ciclista-cidadão feliz. É um símbolo de que devagar se chega longe e que existe uma demanda reprimida para os transportes à propulsão humana nas cidades.