Os 30 mitos mais comuns sobre o uso da bicicleta e como respondê-los

Falácias sobre o uso da bicicleta

Falácias sobre o uso da bicicleta – Cycling Fallacies.com

Todas as cidades do mundo em algum momento tiveram de lidar com mitos relacionados ao uso da bicicleta. Em alguns lugares os pressupostos equivocados sobre a importância da mobilidade em duas rodas movidas a pedais são coisa do passado.

Há no entanto um longo caminho para garantir que verdades comuns para quem pedala rotineiramente sejam transformadas em senso comum.

O site “Cycling Fallacies” (falácias ciclísticas) traz resposta para algumas das argumentações mais comuns de quem é contra o uso da bicicleta mas usa informações incorretas para disfarçar.

É possível ter resposta para questões bastante corriqueiras sobre “como não somos iguais a Holanda”, ou sobre a falta de apreço dos ciclistas pelas regras de trânsito. Cada mito que cai é certamente um giro no pedal para que mais pessoas descubram as maravilhas do uso regular da bicicleta para as pessoas e as cidades.

O site foi traduzido do inglês britânico para o português europeu então algumas expressões de uso corrente em Portugal podem soar estranhas aos ouvidos brasileiros. Talvez o ajuste mais notório de tradução seja o de substituir “estradas” por “ruas”. Mas no geral, os argumentos estão por lá.

Três dimensões da qualidade de vida nas cidades

A maioria absoluta das cidades é incapaz de conceder três simples desejos: ter uma economia local forte, qualidade de vida e moradia com preços acessíveis. Um levantamento recente nos Estados Unidos pesquisou as 100 maiores zonas urbanas do país e encontrou apenas três que concentram as qualidades fundamentais que todos buscam.

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O trilema da habitação.

É possível conseguir sucesso em até duas das variáveis, mas quase nunca em todas. Com o mínimo de observação é possível visualizar esse tripo dilema, ou “trilema” dentro de uma única cidade.

Fortalecimento econômico muitas vezes gera melhoria na qualidade de vida que costuma ser acompanhado de um aumento no custo de moradia. É possível ainda ter qualidade de vida à preços acessíveis, mas sem pujança econômica.

Inúmeros exemplos em terras brasileiras demonstram a dificuldade em conciliar o acesso à moradia com maior desenvolvimento econômico. Seja nos morros cariocas ou na periferia paulistana, para ter emprego e renda muitas pessoas são forçadas a buscar o que se define em termos técnicos como “habitações subnormais”.  Chamamos aqui de favelas, o que se trata de um o fenômeno global, pessoas de baixa renda com tetos precários sobre suas cabeças.

A análise passa menos por medir a qualidade das construções das favelas, mas no acesso à cidade pelos mais pobres. Ou simplesmente nos três simples desejos que qualquer pessoa pediria ao gênio da lâmpada: ter qualidade de vida, acesso à renda e conseguir ter onde morar.

Precisamos primeiro partir pressuposto que vivemos em um mundo maioritariamente urbano. Afinal, o êxodo rural foi um fenômeno do século XX. A população do mundo hoje é composta por urbanóides. Uma população que nasce, cresce e morre nas colméias humanas, nossos zoológicos de pedra.

Através do comparativo das cidades norte-americanas, é possível ter uma pequena dimensão do desafio que representa para uma nação economicamente periférica como o Brasil equacionar as necessidades de sua população. Nosso cobertor é ainda mais curto do que o estadunidense, mas nossos habitantes também partilham de desejos fundamentais que são certamente universais.

Desafio de urbanização tropical

Traduzir um modelo de urbanização tropical envolve centrar os maiores esforços em políticas de igualdade social em que o maior número de pessoas possa ter acesso ao maior horizonte de possibilidades possível.

O exemplo brasileiro mostra com clareza que cidades apenas para alguns, são cidades para ninguém. Os muros nunca serão tão altos, as blindagens nunca serão tão resistentes para deixar de fora a massa de excluídos. Realizar os três desejos urbanos só é possível quando são concedidos para todos.

Um primeiro passo certamente é uma melhor distribuição territorial das oportunidades econômicas, dentro do território urbano e também nas diversas cidades do país.

O simbolismo de São Paulo, locomotiva do país é justamente o erro que trouxe a cidade ao seu atual quadro de inchaço urbano com moradia cara e sem qualidade de vida.

Bicicleta é bom, mas não é tudo

O papel da bicicleta é acima de tudo marginal. Pelas margens das pistas congestionadas, pelos bordos das ruas e avenidas ciclistas desbravam outras cidades possíveis.

Para usar a bicicleta sempre, o ideal é ter trabalho perto de casa, ou os deslocamentos diários tornam-se maratona atlética em busca de dinheiro. É preciso portanto garantir moradia perto dos empregos unindo uma economia local forte e moradia acessível.

Já qualidade de vida é inerente ao uso das magrelas. Deslocar-se utilizando as próprias pernas envolve necessariamente um ambiente agradável, do contrário ser ciclista torna-se um eterno nadar contra a corrente em um rio infestado de piranhas e jacarés famintos.

De maneira resumida, a bicicleta sozinha pode não resolver todos os problemas, mas certamente é capaz de abrir os primeiros caminhos para as soluções desejadas e necessárias.

Leia mais:

Only Three US Cities Have Good Jobs, Affordable Housing, and High Quality of Life (Gizmodo)
The Housing Trilemma (Oregon Office of Economic Analysis)

Bicicultura, de evento a movimento

Slowride, devagar para chegar mais longe

Slowride, devagar para chegar mais longe

Quem participou da edição paulistana do Bicicultura 2016 pode nem se lembrar do caminho pedalado até aqui. Dentre os números, um favorito, mais de 800 bicicletas “manobradas” pelo serviço de estacionamento.

Dentre as iniciativas que promoveram a cultura da bicicleta, vale buscar na memória qual momento mais épico.

A primeira emoção foi ver os relógios públicos da cidade convocando para o Bicicultura, um passo rumo ao “ativismo main stream”. Depois faixas espalhadas pelas ruas do centro de São Paulo indicando interdições no viário, as famosas abertura de ruas para a convivência de pessoas.

O viaduto do Chá teve arrancadas, bike polo, mas foi também espaço aberto para o caminhar errático. Perto dali, no caminho até o a estação de metrô do Anhangabaú, foi possível ter a rua Xavier de Toledo inteira para brincar, domingo foi dia de empinar bicicletas.

Memorável mesmo foi a Feira da Bici que pareceu pequena até. Estava plantada na rua que se deu o nome de praça Ramos de Azevedo. Durante os 4 dias de evento, aquele espaço voltou a honrar seu nome.

Por ali o trânsito era leve. Pelas faixas vermelhas pintadas no chão cruzavam as bicicletas, no asfalto entre as barracas e a ciclofaixa caminhavam participantes do Bicicultura e a população flutuante do centro. Foi possível flanar na rua que se chama praça. Tomar café, fazer compras, comer um hambúrguer ou saborear um churros.

Nas calçadas da mesma praça Ramos teve campeonatos e manobras, mas teve também a lentidão do Slow Ride e simples caminhadas.

Além de todas as atividades no espaço das ruas, teve ainda a praça das Artes. Daqueles locais novos, ainda sem alma própria, mas com traço arquitetônico moderno e uso público com hora para fechar.

Por lá teve Mão na Roda, estacionamento para bicicletas, espaço bicicletinha palquinho e inúmeras atividades ao ar livre. Que além dos papos e encontros, somou-se às palestras e painéis que aconteceram simultaneamente nos espaços fechados.

Mas o destaque maior dos espaços fechados foi certamente a sala Olido, antigo cinema que viu no palco a união do mais engajado ativismo unido ao poder público e a iniciativa privada.

A abertura do Bicicultura 2016 foi um pouco de música para quem acompanha há mais de 10 anos esse tal de cicloativismo.

A história do Bicicultura

Foi exatamente em 2006 que São Paulo sediou o II Fórum brasileiro de mobilidade por bicicletas também conhecido como  2º Encontro Nacional de Cicloativistas. Nascido em Florianópolis em 2005, o evento foi embrião da fundação da União de Ciclistas do Brasil, que aconteceu no III Fórum no Rio de Janeiro.

Muitas das pessoas presentes no modesto espaço da Biblioteca Anne Frank em 2006 puderam testemunhar o crescimento da cultura da bicicleta em São Paulo nessa última década.

Mais do que um crescimento no número de participantes, cresceu a importância da bicicleta como movimento em prol da humanização das cidades. A cada revolução dos pedais do cicloativismo aumenta a intensidade e principalmente a diversidade de um grupo tão leve e forte quando as rodas das nossas amadas magrelas.

Esse foi apenas uma impressão do Bicicultura, centenas de outras seguirão circulando pela internet, nas festas e na alegria de uma verdadeira União de Ciclistas do Brasil.

O Bicicultura cresceu

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Após duas tímidas edições, a primeira em Brasília 2008, e a segunda em Sorocaba 2010, vem aí uma nova edição do Bicicultura. Desta vez repleta de atividades dentro de diversas vertentes do uso da bicicleta. Da infraestrutura à economia, do ativismo ao governo, do campeonato de arrancadas ao slow bike. Tudo concentrado em 4 dias na cidade de São Paulo, de 26 a 29 de Maio.

Estima-se a presença de mais de seiscentos ciclistas de norte a sul e de leste a oeste do país com participações por sul-americanas e até malaios. Será uma grande festa da bicicleta onde será possível ver e ouvir de tudo um pouco, uma oportunidade para troca de informações sobre esse maravilhoso veículo que neste inicio do século XXI, volta a demonstrar todo o seu potencial para melhorar nossas cidades no presente e no futuro.

A Transporte Ativo estará presente mediando o painel “ Bicicleta cargueiras e courrier: solucionando a logística de entregas nos centros urbanos“. Apresentaremos o projeto Ciclo Rotas Centro, no painel “Planejamento Cicloviário”, participaremos do painel “Mapeamento colaborativo – produzindo e compartilhando dados georreferenciados”, relançaremos o livro “Frota de Bicicletas” e ainda realizaremos a atividade externa “ slow bike” em parceria com Pedalentos.

Inscreva-se, participe, faça parte dessa grande festa da bicicleta no Brasil.

Paternidade, crianças e espaço público

Crédito: Nelsina Vitorino/DB/D.A Press. Brasil. Campina Grande - PB.

Crédito: Nelsina Vitorino/DB/D.A Press. Brasil. Campina Grande – PB.

A paternidade é um videogame repleto de desafios em que cada fase concluída é apenas o início da seguinte. Criar uma criança acostumada a circular pela cidade é desafio maior do que qualquer jogo.

Após o nascimento de uma criança o corpo vai se amadurecendo aos poucos. Da firmeza do pescoço até o caminhar os músculos vão se construindo. Ao mesmo tempos os ossos se alongam, as conexões no cérebro se multiplicam.

Junto com a criança, nasce também o medo dos pais. A pequenez e fragilidade da vida está lá demonstrada a todo o momento, mas tal como um passarinho que aprende a voar jogando-se do ninho, assim também somos nós.

A mais divertida das tarefas de educar uma criança é apresentar o mundo ao redor. Tal introdução envolve conduzir pelas ruas uma vida pelo qual somos totalmente responsáveis.

Face a agressividade motorizada e dos riscos de um ambiente urbano criado nos moldes de autoestradas, muitas famílias blindam-se. As crianças então circulam presas nas carruagens de aço e vão de um espaço fechado ao outro.

Da aurora da nossas vidas que é a infância, leva-se tudo e quase nada. Ficam gravadas as marcas dos hábitos que vão se formando e das habilidades adquiridas. Apresentar o mundo para uma criança em uma grande cidade envolve permitir que elas circulem livres pelas calçadas.

O olhar atento e a companhia próxima são vacina contra a imprudência de automobilistas e as inúmeras saídas de garagem. Mas são nos canteiros de flores, nas árvores, grades e escadas pelo caminho que nossos filhos podem conhecer o espaço onde vivem para futuramente dominá-lo.

Chega um dia então que é hora de envolver transportes ativos na equação, primeiro um patinete, logo então uma bicicleta sem pedais. Aumenta a velocidade e o pai torna-se atleta enquanto a criança se apaixona pelo vento no rosto.

Na mais tenra idade, poder voar em liberdade é privilégio. Prazer e alegria que marcam de forma indelével o resto de nossos dias.

Muitos de nós lembram das primeiras pedaladas, quem nos ensinou e guardam na memória a sensação da conquista do equilíbrio. Por meio de uma bicicleta de equilíbrio, antes dos 2 anos de idade, ser ciclista entra na parte das memórias gravadas no inconsciente.

As memórias conscientes costumam aparecer somente após os 3 anos de idade, a bicicleta quando introduzida desde a mais tenra infância é portanto das marcas que se assentam na alma, é como a nossa língua materna que nossa razão nos diz que sempre soubemos, mas que na realidade aprendemos cedo demais para nos lembrarmos.

Cada criança que descobre o vento no rosto torna-se possibilidade futura de cidades livres de parabrisas e blindagens. Liberemos então as calçadas para a infância e avancemos por grandes distâncias carregando em nossas bicicletas, sentadas nas cadeiras as mais preciosas vidas que temos, aquelas que trouxemos ao mundo em nome das quais defendemos cidades amigas da bicicleta.

Um carrinho de bebê ou um adulto com uma criança no colo circulando pelas ruas é documento vivo sobre a necessidade de espaços agradáveis e seguros para circulação humana. Uma criança livre em um meio de transporte ativo, ou sentada como passageira em uma bicicleta é mostra concreta de que outras cidades são possíveis.

Leia mais:

Why Are Little Kids in Japan So Independent?

The benefits of biking to school

Pedalar é uma forma de teletransporte

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Qualquer pesquisa básica na internet irá dar muitos resultados sobre os benefícios para a saúde do uso da regular da bicicleta. Já quem se dispuser a organizar um desafio intermodal, rapidamente comprovará o óbvio: pedalar é o meio de transporte mais rápido nas cidades.

Um novo estudo no entanto prova o que antes parecia conversa de ciclista. Pedalar leva você de um lado a outro INSTANTANEAMENTE, ou seja sem gastar NENHUM tempo.

Os dados da pesquisa vieram da análise dos hábitos de deslocamento de 50.000 pessoas na Holanda. A maioria delas, naturalmente, pedalava com alguma regularidade ao longo da semana.

A conclusão foi que para cada 75 minutos gastos no selim da bicicleta (11 minutos por dia em média), há um acréscimo de 6 meses na expectativa de vida. Até aí, sem novidades, várias pesquisas já indicam resultados similares.

Sempre a mesma história, tenha hábitos de alimentação saudáveis e coloque seu corpo para se exercitar. Boa comida e um coração batendo forte no peito são garantias de uma vida longa.

É importante, no entanto, analisar os números com atenção. Onze minutos por dia são 3.906 minutos por ano. Ao final de 70 anos, serão 273.385 minutos o que é uma outra forma de representar seis meses.

É exatamente o tempo que sua expectativa de vida irá aumentar se você pedalar 11 minutos por dia.

Ou seja…

Cada minuto que você gasta pedalando aumenta sua expectativa de vida em um minuto.

E não é só isso, a bicicleta irá também aumentar seus níveis de endorfina (o hormônio da felicidade). Basta lembrar aquela primeira pedalada até o trabalho (ou a escola) e a poderosa sensação que veio depois de chegar.

Assim, na próxima vez que for decidir qual a melhor forma de ir até onde precisa, esqueça os cálculos de tempo do Google Maps. Montar na bicicleta e sair pedalando é basicamente tempo livre. Cada minuto sobre pedais, flutuando sobre ruas, avenidas e ciclovias irá voltar para você. Todo o tempo investido será revertido, sem qualquer perda.

Na ponta do lápis, a bicicleta é basicamente um meio de teletransporte. Um teletransporte que deixa você mais feliz e ainda economiza dinheiro.

Vida longa e próspera.

Esse texto é uma tradução adaptada de: Bicycles are instantaneous teleportation devices, says science | PeopleForBikes

 

Caminhos para qualificar e fortalecer a bicicleta nas cidades

Entre os dias 27 e 29 de abril de 2016 foi realizado o IV Workshop – A Promoção da Mobilidade por Bicicleta no Brasil com o tema: “Qualificando e fortalecendo as organizações”.

Durante os três dias foi possível traçar um caminho completo desde as origens da sociedade civil até a sempre necessária lembrança sobre o que nos une, fortalece e dá forças para seguir em frente: a bicicleta.

Quem somos, para onde vamos, por quê vamos?

Clarisse Linke - Foto: Michelle Castilho

Clarisse Linke – Foto: Michelle Castilho

Clarisse Linke, diretora executiva do ITDP Brasil, foi a responsável por dar o contexto histórico logo no primeiro dia. Ao mostrar a evolução do conceito de sociedade civil em relação ao Estado e ao mercado, ela demonstrou a importância do autoconhecimento para as organizações.

O mergulho nas referências deixou claro  como a marcha da história define o papel das organizações. Desde os tempos do Leviatã de Hobbes, até as conceituações de Gramsci e Habermas, a sociedade civil define-se como essa força entre o Estado e o Mercado.

O cenário, com o passar do tempo, torna-se complexo ampliam-se às fontes de recurso, as regulações legais e práticas de gestão. Evoluiu o capitalismo e houve fortes impactos nos caminhos possíveis para o terceiro setor que funciona com híbrido na busca por benefícios coletivos utilizando recursos privados. Equilibra-se assim entre o Estado e seus recursos públicos e o Mercado de benefícios privados.

Certamente a principal conclusão é que precisamos conquistar legitimidade, representatividade e credibilidade, através de uma abordagem centrada no ser humano com princípios éticos que facilitem, capacitem e catalisem formas de participação e o empoderamento das pessoas.  E tudo isso ainda com eficiência e efetividade, tal como a bicicleta, o meio de transporte mais eficiente jamais inventado.

Ferramentas participativas de análise

Montado o pano de fundo histórico, era a hora de colocar a mão na massa. Renata Florentino, coordenadora geral da Rodas da Paz, e Gabriela Binatti, da Transporte Ativo, apresentaram algumas ferramentas participativas de análise que podem ajudar as organizações da sociedade civil a alcançar melhores resultados.

Foi possível conhecer um pouco e sentir como trabalhar na execução de um mapa de atores, simular uma elaboração de cenários e uma análise de fortalezas, oportunidades, fraquezas e ameaças (FOFA ou SWOT).

Assim como em um oficina mecânica, cada ferramenta serve para determinado ajuste. Uma elaboração de cenários precisa de uma grande diversidade de participantes e boa divulgação. Só através da ampla participação será possível produzir resultados além da caixa dos convertidos.

Já um mapa de atores é uma ferramenta de uso interno e não divulgável. Através dela, as pessoas de uma organização podem entender de quem precisam se aproximar para conseguir mais apoios e a quem precisam estar atentos para não ter sua trajetória interrompida por forças contrárias.

Geralmente utilizada em processo de planejamento estratégico, a ferramenta FOFA é de fácil aplicação e por isso bastante popular. Através da união entre o diagnóstico externo e o interno é possível debater uma visão de futuro e a missão da organização.

Formações em Ciclomobilidade

Foto: Michelle Castilho

Marcia Menêses, Renata Florentino, Phelipe Rabay e Renata Falzoni – Foto: Michelle Castilho

Em um painel com mediação de Renata Falzoni, participantes do Workshop puderam conhecer as diferentes aplicações de oficinas de formação em ciclomobilidade em diversas cidades brasileiras. Compuseram a mesa: Daniel Guth da Ciclocidade (São Paulo), Renata Florentino da Rodas da Paz (Brasília), Phelipe Rabay da Ciclovida (Fortaleza) e Marcia Menêses da Mobicidade (Salvador).

O tema da formação foi mais uma oportunidade de entender como cada cidade tem suas motivações e ações bem distintas para alcançar o mesmo objetivo final.

Com mais de 10 anos de atuação, a Rodas da Paz faz uma capacitação do voluntariado para suas ações. O grande benefício é manter uma base atuante de voluntários e ao mesmo tempo ter por perto os “dinossauros”. Um caminho em que se preserva a memória institucional e constrói-se um futuro através da renovação de quadros.

A Mobicidade Salvador fez sua primeira formação em 2016, capacitar para ação também foi o viés. Era importante qualificar as discussões em audiências públicas sobre o plano diretor e o plano de mobilidade. As bicicletas precisavam entrar na pauta e a melhor maneira de garantir que a mobilidade ativa fosse incluída no futuro da cidade era através da multiplicação de vozes, com mais ciclistas em defesa das magrelas.

A Ciclocidade já realizou duas formações, em uma mistura do que é feito em Brasília e Salvador. Buscou-se inicialmente capacitar ciclistas nas mais diversas áreas da cidade a tornarem-se atores relevantes na discussão das pautas relacionadas à mobilidade. O enfoque foi mais centrado nos meios de como realizar incidência política em favor da bicicleta na cidade.

O sucesso da primeira formação foi o catalisador para o aumento das inscrições através do boca a boca o que mostra um caminho necessário (ainda que longo) de investir em trazer cada vez mais pessoas para a discussão.

O aprendizado portanto requer alternativas locais, mas é acima de tudo um esforço que se soma aos poucos nas diversas organizações ao redor do Brasil em busca de aglutinar um país com grupos fortes e unidos em buscas da qualidade de vida nas cidades por meio de uma mobilidade mais humana.

Como transformar informação em ação

 Foto: Michelle Castilho

Victor Andrade – Foto: Michelle Castilho

No caminho para a conclusão do Workshop, Victor Andrade, do Laboratório de Mobilidade Prourb-UFRJ, nos trouxe um panorama dos desafios atuais com riscos globalizados e descontrolados.

Os bichos humanos mudaram fisicamente muito pouco nos últimos milhares de anos, enquanto a organização social transformou-se drasticamente. Nos tornamos incapazes de lidar com a modernização que alcançou tal estágio de complexidade que tornou-se um problema em si mesma.

Urbano por excelência, o planeta moderno do antroproceno é ambiente de gráficos em ascensão exponencial. A taxa de habitantes, sua concentração nas cidades, os gases de efeito estufa etc. Em tudo, a única constante é a velocidade, sempre crescente.

É possível no entanto partir da premissa que o desenho urbano está diretamente ligado aos padrões de comportamento da sociedade. Os resultados do passado são colhidos no presente. Nossas cidades muradas sofrem com epidemia de obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis e a depressão como mal do século XX ainda nos impacta.

Felizmente o horizonte é repleto de possibilidades. Temos no momento o dever de agir para um futuro urbano centrado nos animais frágeis que somos. A política urbana tem  o papel de identificar alternativas de adaptação do atual cenário para maximizar resultados positivos e minimizar as consequências negativas.

Um caminho possível, num horizonte de debate democrático é através da conexão entre ativismo, política e políticas públicas. Embasados em dados de qualidade seremos cada vez mais fortes e capazes de construir novos caminhos. É possível ver janelas de oportunidades nos becos sem saída em que nos prendemos voluntariamente e daí, abrir portas para um futuro com uma humanidade mais saudável.

Organizações de excelência na promoção ao uso da bicicleta

Foto: Michelle Castilho

Marcio Deslandes – Foto: Michelle Castilho

Marcio Deslandes representou a Federação Européia de Ciclistas (ECF) e a World Cycling Alliance para falar sobre “Governança da Bicicleta”. Foi de certa forma a possibilidade de visualizar os efeitos práticos da implementação ao longo dos anos do que foi o aprendido durante o Workshop.

Através da identificação do potencial da bicicleta em diferentes áreas, do mapeamento dos atores e da governança, é possível alcançar grandes distâncias e facilitar para que cada vez mais pessoas pedalem.

De maneira resumida, a governança envolve responsabilidade corporativa (em inglês, compliance), prestação de contas, transparência e equidade.

Transparência é fundamental quando se entende o caráter de benefícios públicos que uma organização da sociedade civil deve promover. É preciso, antes de mais nada, o desejo de tornar público os caminhos seguidos, tanto como prestação de contas, quanto para colaborar no aprendizado coletivo de todo o setor.

Para além de todos os conceitos teóricos, governança no terceiro setor envolve estabelecer parcerias, construir pontes e criar alianças que com o passar do tempo fortalecem o grande objetivo comum, ter mais pessoas em mais bicicletas mais vezes.

O Amor à Bicicleta

Foto: Michelle Castilho

Renata Falzoni – Foto: Michelle Castilho

Renata Falzoni,  cicloativista do “Bike é Legal” brindou a todas as pessoas no Workshop com a mais bela e empolgada declaração de amor pelas duas rodas movidas a pedal.

A palestra de encerramento foi o momento da pura inspiração e o momento para relembrar porque é preciso dedicar tanto esforço, na maioria das vezes puramente voluntário, em prol das bicicletas.

Falzoni, claro, passou por todas as vantagens da bicicleta, eficiência, justiça social, eficiência energética etc.  Seguiu por entre as mais diversas definições do que a bicicleta representa para as pessoas. De óculos para ver a realidade social até a capacidade que a magrela tem de levar-nos para além dos nossos próprios sonhos.

O percurso foi então para a analogia dos ciclistas como um grupo de viciados em endorfina que busca sempre aliciar mais gente para o consumo da “droga da felicidade”. Aquela que nosso corpo produz sozinho, sempre que praticamos o esforço físico repetitivo de girar os pedais.

Com um efeito similar aos opióides, a endorfina atua no nosso sistema nervoso central, inibindo a dor, trazendo euforia, aumentando o bem estar, prevenindo contra a depressão e controlando a ansiedade. Em resumo, é um medicamento que não se vende com benefícios individuais que contrabalançam praticamente todos os efeitos negativos do desenho urbano segregador praticado ao longo do século XX.

Nas palavras de Renata, essa paixão que nos move enquanto pedalamos precisa ser radical no amor, ou seja, praticada com um certo amadorismo daqueles que acreditam nos seus ideais e os promovem para além de cálculos puramente financeiros.

Que venha o V Workshop e que a inspiração que circulou no Studio-X Rio, com o apoio do Banco Itaú possa se propagar pelas ruas brasileiras. Obrigado a todas e todos e pedalemos juntos até 2017.

A importância de premiar quem promove a bicicleta

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Promover a bicicleta é algo que se faz com muito arroz, feijão e reconhecimento. Assim foi na trajetória da Transporte Ativo e justamente por reconhecer a importância de prêmios que desde 2014 realizamos o Prêmio – Promoção da Mobilidade por Bicicleta.

Em sua terceira edição, o prêmio segue divido nas categorias: “Ação Educativa e Conscientização”, “Levantamento de Dados e Pesquisas” e “Empreendimentos”. Mais do que uma oportunidade de conhecer belas iniciativas, é também um momento de medir o crescimento da importância geral que a mobilidade em bicicleta ganha com o passar dos anos.

Saiba mais sobre as melhores iniciativas em prol da Bicicleta, agora vamos a elas:

Ação Educativa e Conscientização

Vencedor           Ciclocidade – Bicicleta Faz Bem ao Comércio –  São Paulo

Menção Honrosa          Rodas da Paz – Caminhos da Cidade –  Brasília

Levantamento de Dados e Pesquisas

Vencedor         Ciclo Urbano – Pesquisa Origem Destino –  Aracaju

Menção Honrosa        Cidade Ativa – Painéis interativos para a Paulista Aberta – São Paulo

Empreendimentos

Foto: Michelle Castilho

Phelipe Rabay da Ciclovida recebeu o prêmio em nome da Úrbici. Foto: Michelle Castilho

Vencedor          Úrbici Café – Fortaleza

Menção Honrosa          Bike Rio Café –  Rio de Janeiro

Menção Honrosa          Compartibike –  São Paulo

Menção Honrosa          Biciponto – Porto Alegre

Infraestrutura para as pessoas em Alegrete

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A Prefeitura de Alegrete, no Rio Grande do Sul, abriu processo de licitação para construção da primeira ciclofaixa de uso compartilhado (por pedestres e ciclistas) da cidade. A nova infraestrutura será construída com recursos oriundos do repasse do estacionamento rotativo implementado a pouco mais de 2 anos na região central da cidade.

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Trata-se de um importante avanço para a cidade que está trabalhando para garantir uma infraestrutura mínima de deslocamento para as pessoas. Entre os principais benefícios do projeto em questão podemos citar:

  • a garantia de circulação  para quem se desloca a pé ou em bicicleta;

  • maior equidade no uso do espaço público;

  • reconhecimento do uso de bicicleta na cidade, pois somente na ponte Borges de Medeiros foram contabilizados mais de 1600 ciclistas em 12 horas em maio de 2015;

  • preferência ao deslocamento das pessoas garantindo um melhor acesso aos bens e serviços que a cidade tem a oferecer;

  • maior diversidade na oferta de infraestrutura viária básica, promovendo inclusão social e melhorando auto estima de quem usa a bicicleta e a sola do pé como meio de transporte;

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Av. Eurípedes Brasil Milano, onde será implantada a infraestrutura.

Além do mais, a iniciativa da Prefeitura de Alegrete está totalmente alinhada com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (lei nº 12.587/12), que estabelece a correta priorização nas políticas públicas aos modos ativos de deslocamento.

Mais do que uma ciclofaixa de uso compartilhado, a cidade está construindo infraestrutura para as pessoas.

Este texto foi produzido a quatro mãos com a colaboração de Daniel Guth.

Saiba mais:

Aberta a licitação para implantação da primeira ciclofaixa em Alegrete

Primeira ciclofaixa em Alegrete, na Eurípedes, abre licitação

As melhores iniciativas em prol da Bicicleta

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Saiu o resultado do “III Prêmio – A Promoção da Mobilidade por Bicicleta no Brasil“. Foram ao todo 37 inscrições nas três categorias. Destaque absoluto foi a bela disputa entre os empreendimentos, foi tão concorrido que acabaram sendo dadas três menções honrosas ao invés das esperadas duas. Já as outras duas categorias tiveram resultados quase de consenso entre a comissão julgadora.

Ação Educativa e Conscientização

Vencedor           Ciclocidade – Bicicleta Faz Bem ao Comércio –  São Paulo

Menção Honrosa          Rodas da Paz – Caminhos da Cidade –  Brasília

Levantamento de Dados e Pesquisas

Vencedor         Ciclo Urbano – Pesquisa Origem Destino –  Aracaju

Menção Honrosa        Cidade Ativa – Painéis interativos para a Paulista Aberta – São Paulo

Empreendimentos

Vencedor          Úrbici Café – Fortaleza

Menção Honrosa          Bike Rio Café –  Rio de Janeiro

Menção Honrosa          Compartibike –  São Paulo

Menção Honrosa          Biciponto – Porto Alegre

As melhores iniciativas na promoção ao uso da bicicleta

Vale colocar um pouco mais sobre as iniciativas, na palavra dos responsáveis. Primeiro “Ação Educativa e Conscientização“. Dividida em três fases e ainda está em execução:

A campanha “Bicicleta faz bem ao Comércio” foi lançada ao final do mês da mobilidade (30/9) de 2015, com o objetivo de sensibilizar comerciantes ainda resistentes com a presença cada vez maior de ciclistas em São Paulo.

Também ainda ativo, o projeto “Caminhos da Cidade – Atividades interdisciplinares sobre mobilidade urbana“, recebeu a menção honrosa com um material que:

pretende proporcionar atividades em uma linguagem mais lúdica para trabalhar o tema bicicleta no universo escolar. A proposta é promover uma reflexão sobre mobilidade sustentável, incentivando a criatividade e a sensibilidade ambiental e social de estudantes da nona série do ensino fundamental e do primeiro ano do ensino médio.

Levantamento de Dados e Pesquisas” é a categoria fundamental para que mobilidade em bicicleta seja feita menos com base em achismos e paixões e mais centrada nos impactos positivos que mais bicicletas nas ruas trazem.

Realizada entre 2014 e 2015, a “Pesquisa Origem e Destino das viagens de bicicleta no município de Aracaju” é a primeira do gênero no país e abrangeu todos os bairros da capital sergipana.

Como resultado, foram produzidos dados inéditos de “grande utilidade para a elaboração de politicas públicas municipais relacionadas à bicicleta.”

Os “Painéis interativos para a Paulista Aberta” foi a consolidação de uma metodologia desenvolvida pela Cidade Ativa em diversos projetos e pesquisas.

A pesquisa forneceu dados para fortalecer os argumentos do Movimento Paulista Aberta, junto com outros levantamentos realizados por outras organizações envolvidas na causa, e foram apresentados à Prefeitura e apontados na Audiência Pública que debateu a abertura da avenida.

Quem tiver interesse, pode conferir o relatório completo da pesquisa sobre a Paulista Aberta.

Dentre os “Empreendimentos“, surgiu muita coisa boa que mostram que há uma nova economia ao redor da bicicleta. Paixão e sustento tem pedalado juntos.

Grande vencedor da mais disputada categoria:

O Úrbici Café é uma cafeteria de rua e, inspirado no papel que a bicicleta desempenha no cenário urbano, nasceu consciente de que empresas devem exercer papel social fundamental para o bem estar coletivo, dessa forma trabalhamos de maneira responsável sempre fomentando o uso da bicicleta como ferramenta para melhorar a cidade e promovemos outras ações que incentivam boa convivência entre os indivíduos e estimulam novas formas de pensar sobre problemas do cotidiano.

Café e bicicleta é uma história que tem andado junto, mas a força do Úrbici está justamente em trazer para a praça algo que em geral funciona dentro de espaços tradicionais de comércio. Os jurados reconheceram portanto a importância de ser leve e simples como a bicicleta.

Reconhecida por uma menção honrosa, outra iniciativa similar, visou atender a uma demanda dos ciclistas cariocas e acolher necessidades.

O Bike Rio Café é uma bicicletaria, um espaço multifuncional, que promove e incentiva a utilização e da bicicleta como mobilidade urbana. Oferece estacionamento, vestiários com chuveiros, espaço bistrô/café para lanches e refeições e loja especializada com oficina.

Nascida da iniciativa de jovens estudantes da USP:

A Compartibike é uma empresa especializada em soluções inovadoras de mobilidade urbana, tendo como principal área de atuação o planejamento, implantação e operação logística de sistemas de bicicletas compartilhadas.

O reconhecimento veio brindar o crescimento da iniciativa que de 2009 até hoje saiu de uma premiação de empreendedorismo e hoje está presente em mais de 10 cidades brasileiras e viu seu faturamento crescer 10 vezes em 2015 na comparação com o ano anterior. Aceleração na velocidade dos pedais.

A última menção honrosa coube ao Biciponto projeto que facilita a vida de quem pedala integrando a bicicleta no comércio local que de outra forma não estaria totalmente apto a atender as necessidades de quem usa a bicicleta.

Diante de uma emergência como um pneu furado, o ciclista acessa a plataforma on line com sistema de geolocalização e encontra o biciponto e a bicicletaria mais próximos.

(…)

Essa rede gera autonomia para o ciclista e ao mesmo tempo cria novas conexões entre os usuários desse modal, o comercio local e o comércio especializado, disseminando o senso de comunidade e enriquecendo as relações interpessoais.

Todas as iniciativas estarão presentes no “IV Workshop – A Promoção da Mobilidade por Bicicleta no Brasil

Os critérios de avaliação

Votaram para escolher os melhores um “grupo de notáveis” composto por 15 pessoas próximas à Transporte Ativo. Todos deveriam ter em mente os seguintes parâmetros na hora de avaliar os trabalhos:

· Comprometimento e Alcance dos Resultados

· Inovação e Desenvolvimento

· Combinação de diferentes estratégias

· Variedade de Resultados

· Praticidade e Replicabilidade

Além disso, não havia obrigação de indicar um vencedor ou menção honrosa. A comissão julgadora estava livre para premiar uma iniciativa e até 2 menções por categoria, ou votar em branco caso julgassem que nenhuma inscrição merecia ser o prêmio principal ou ser mencionada.

Cada projeto escolhido como vencedor por um dos jurados recebeu 3 pontos, cada menção honrosa recebeu 1 ponto.

Para manter um padrão de qualidade nas premiações, decidimos que para receber uma menção honrosa deve-se ter pelo menos metade dos pontos do vencedor da categoria.

Pelos critérios apontados, duas categorias tiveram apenas uma menção honrosa, porém na categoria “Empreendimentos” três projetos tiveram mais de metade dos pontos do vencedor, julgamos então justo que também recebesse o devido reconhecimento.